02 outubro 2012

Sobre cartas e poemas de amor



Como já disse Álvaro de Campos em 1935 (heterônimo que mais gosto do Pessoa):

       Todas as cartas de amor são
       Ridículas.
       Não seriam cartas de amor se não fossem
       Ridículas.


       Não só as cartas Álvaro, os poemas de amor também o são. 

    As cartas de amor, se há amor,
    Têm de ser
    Ridículas.


    Concordo, pois o amor é ridículo! Ridículo e delicioso! Ah, e brega também!

    Mas, afinal,
    Só as criaturas que nunca escreveram
    Cartas de amor
    É que são
    Ridículas.


    Com certeza, quem mais poderia ser ridículo do que alguém que nunca amou? E consequentemente nunca escreveu uma ridícula carta de amor? Ou um ridículo poema de amor? Ou ainda, um breguíssimo poema de amor?

    Quem me dera no tempo em que escrevia
    Sem dar por isso
    Cartas de amor
    Ridículas.


    Ainda estou nesse tempo Álvaro! Mas não escrevo cartas, escrevo poemas, breguíssimos!

    A verdade é que hoje
    As minhas memórias
    Dessas cartas de amor
    É que são
    Ridículas.


    Não são, ou melhor, são, mas é melhor ter memórias ridículas sobre  de cartas de amor ridículas do que não ter do que se  lembrar sobre o amor....não?!

    (Todas as palavras esdrúxulas,
    Como os sentimentos esdrúxulos,
    São naturalmente
    Ridículas.)



    Todos os sentimentos esdrúxulos são ridículos
    Todas as palavras esdrúxulas tem adjetivos semelhantes aos sentimentos esdrúxulos
    O amor é um sentimento....
    O amor pode ser uma palavra...
    Logo...o amor é esdrúxulo?


    Ridículo, esdrúxulo, brega ou sabe-se lá quais outros adjetivos o amor venha a ter, os poetas continuam a escrever cartas de amor, poemas de amor, ou sobre o amor. Não fugi à sina. Escrevi mais um poema...breguíssimo, de amor:



    Reminiscências

    Como esquecer teu sorriso, tua voz, teu perfume
    tua pele e teus cabelos?
    Como superar esse amor que não se vai, e que sim,
    resiste aos meus apelos?

    Por onde ando procuro você,
    e sem perceber, ando em círculos sem fim
    Revejo fotos e vídeos, idéias e lembranças,
    palavras e músicas que te trazem a mim.

    Lugares que fomos me lembram seu rosto,
    e os que nunca iremos, relembram-me impossíveis planos
    Trazem-me ao chão os pés, e assumo meu posto,
    porém revivendo ainda as lembranças, que persistem sem danos

    Reminiscências que insistem em me dizer que não te esqueci
    Histórias intactas de um amor que já teve seu tempo de existir,
    Mas que me martelam na mente, dizendo que este amor embora não quer ir
    Querendo-me trazer de volta todos os momentos que contigo vivi

    Como esquecer esse inaquilatável amor?
    Cuja luz dispersava-se em tantas cores
    que nuances inéditas atribuíam-lhe maior valor
    e onde oásis se formavam banindo dores.
    Como apagar as memórias cravadas desse amor?


    Set/2012

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