22 julho 2009

Memórias Marilienses de “aventuras”: festa no campus e passeio de caminhão-baú


Parece que foi ontem. Não me sinto tão velha! Na verdade, sinto que faz muito tempo! Embora eu continue não me sentindo tão velha! Mas, a despeito do meu sentimento em relação à passagem do tempo versus meu sentimento acerca de meu estado físico (velha ou moça, não importa); resolvi escrever contando as “aventuras” que vivi na faculdade – pois já estou começando a esquecê-las!

Esta foi uma primeira pequena aventura, mas que para mim, garota ingênua de 18 anos - todos os quais vividos numa cidade de menos de um terço do tamanho de Marília, foi um evento no mínimo, inusitado.

Em 1990, no primeiro ano da faculdade, eu e mais três colegas – duas da minha sala, e uma de outro curso, fomos à uma festa noturna no campus promovida pela própria faculdade, aonde haveria uma performance teatral e uma banda, tudo ao ar livre.

Como desde muito jovenzinha eu era uma apreciadora das artes em geral (apesar de viver na caipirice do interiorzão de São Paulo), a encenação, ali, tão próxima de nós, e depois a banda – esse mix de arte e balada foi de uma grande importância para mim! Finalmente eu estava vivendo! Com os meus dezoito inexperientes anos eu estava começando a viver! (Vida sem arte não é viver...)

Terminada a apresentação da banda, enquanto esta guardava seus apetrechos num caminhão baú de médio porte, ficamos numa pequena turma – cinco garotas e 3 garotos bonitões da faculdade de Medicina conversando e enrolando o tempo. Quando nos demos conta, já era quase meia noite e o último “buzum” para a cidade provavelmente já teria passado! Estávamos os oito a pé – até mesmo os bonitões-futuros-médicos! Pois, eu e minhas colegas unespianas estudantes de Biblioteconomia, e Fono, bem como a quinta garota - que não sei quem era e nem o que estudava; éramos, com inclusão desta última, suponho eu, todas durangas-sem-carro, e sem-namorados (as) motorizados.

Como voltaríamos para a cidade?

Enquanto caminhávamos do local da festa em direção ao portão da faculdade, discutindo como iríamos embora, alguém lembrou-se de que o caminhão da banda ainda não havia saído do campus. Voltamos e resolvemos pedir carona ao motorista!

Entramos todos dentro do caminhão e nos acomodamos entre as caixas de som e os demais badulaques da banda. Quando a porta se fechou: escuridão total! Não enxergávamos um palmo à frente do nariz! E lá fomos nós rumo à cidade (assim esperávamos!) nos equilibrando em cada chacoalhada e curva por onde ele passava.

Calma, calma, não fomos sequestrados pelo motorista! Realmente ele nos levou para a cidade, nos deixando em frente ao teatro municipal. Aberto o caminhão, fomos descendo um a um sob os curiosos olhares de alguns transeuntes.

De lá, decidirmos ir até uma outra festa, numa das repúblicas custeadas pela Unesp, aonde morava uma colega estudante de Biblioteconomia também. Com exceção da moça desconhecida, que pegou carona a pé conosco até a rodoviária, aonde pegaria um ônibus para São Carlos para visitar seu namorado (ela tinha namorado!), fomos todos até a festa. A pé, claro. Pelo que me lembro, um dos bonitões da Medicina não chegou a entrar, talvez por achar o local unespiano em excesso...

Não me recordo o nome do bairro aonde ficava essa república, só de que andamos bastante e fazia uma noite fria, e o local ficava próximo à praça do sapo, aonde parece que havia um enorme sapo de cimento. (Acho que vi o tal sapo, mas não posso afirmar com certeza, talvez tenha somente imaginado que o vi...).

E lá ficamos nós na festa. A casa era imensa, praticamente sem móveis. Deviam morar umas oito pessoas ali. Tomamos vinho, comemos mandioca cozida, rimos e nos divertimos muito. Alguns outros participantes que não nós seis, fumaram maconha. Eu, certinha e careta não vi e nem senti o cheiro da erva queimada! Só fiquei sabendo depois (admirada!) que havia fumantes de maconha por lá!

Findada nossa animação, com o sono batendo, fomos os seis embora, a pé. Todos me acompanharam até o pensionato aonde eu habitava e continuei habitando por todos os quatro anos de curso, na rua Álvares Cabral, número trezentos e pouco, no centro.

Os bonitões da Medicina, amigos de uma das meninas, acho que só os vi mais uma ou duas vezes. A moça desconhecida do namorado são-carlense (ela namorava!) nunca mais a vi também. Dela, lembro-me que senti uma espécie de inveja e admiração pela sua capacidade e coragem de ter um namorado e ainda viajar a noite para ir encontrá-lo no fim de semana – coisa que estava há anos luz de minha infantil e gauche existência de dezoito anos – eu, que ainda sequer havia experienciado a mais simples e natural expressão do desejo romântico-sexual: o beijo...

Jun/2009

07 junho 2009

Filme: O Leitor


Assisti recentemente ao filme “O Leitor”, e, a despeito da Kate Winslet ter ganhado o Oscar, senti uma grande vontade de assisti-lo (claro que principalmente por ela, independente da premiação, não posso mentir! hehe) pelo tema envolvendo amantes e leitura.

Não chorei, como algumas pessoas me disseram que o fizeram, mas, realmente o filme ficou na minha mente.

Kate está magnífica no papel da alemã sem instrução, tosca, rude, solitária e complexa ao mesmo tempo. Seu amor, ou seja lá o que for que ela sinta pela leitura e pelos livros me intrigou bastante. Ama romances mas não sabe ler. E, apesar desse interesse vital, não procura aprender a ler por grande parte de sua vida, preferindo que leiam para ela – mas, simultaneamente tem vergonha de não o sabê-lo, escondendo tal segredo a ponto de assumir uma culpa bem maior do que a que verdadeiramente lhe cabia durante o julgamento por ter sido guarda da SS. nazista. Loucura? Não sei, sinceramente! Penso que – numa análise talvez simplista (porque não?) e especulativa, seria a vergonha de não saber ler associada a um iminente e tardio sentimento de culpa?!

Mas, motivações da personagem à parte, o filme é lindo! A relação dos dois amantes entremeada de leituras é fascinante!

A outra questão que surge, desta vez relativa ao “menino” - seu comportamento durante e depois do julgamento de sua ex-amante nos impele a pensar se ele era simplesmente um covarde, ou tão sensível e apaixonado a ponto de respeitar o segredo da sua amada?! Ou ambos, talvez?

Arrependeram-se os dois – o menino e sua amante, das suas controversas decisões?

São por meio desses questionamentos que o filme se fixa em nossa mente....e alça a leitura e o ato de ler a uma onipresença em todo o filme; sendo, junto com os amantes, um terceiro personagem principal com voz ativa nas vidas dos mesmos.

Para quem ama, e para quem ama os livros e a leitura – um belo e tocante filme!


O Leitor (The Reader). Elenco: Kate Winslet, Ralph Fiennes, Bruno Ganz, Alexandra Maria Lara, David Kross. Direção: Stephen Daldry. 2008.

11 maio 2009

INSÔNIA (brainstorm)

Quase adormeço. Quase. Mas o cheiro dela. O cheiro dela não me permitia fazê-lo. Suor e óleo de amêndoas. Inebriante. Fêmea. Pele doce. Morena e firme. Doce. Mistura agridoce e selvagem. Indefinível. E tão simples. Tão fácil. Tão difícil. Fêmea, e só. Complexa e abrangente. Desde a mais reles e tosca, à mais sublime e erudita. Fêmea. Impossível dormir. Naquele profundo oceano de sentidos, minha pele ardia. E a queria. Mais uma vez. Aturdido. E querendo. Sempre o querer. O profundo possuir. O penetrar. O despir. O gozo simples revestido. De quê? Do avesso exposto. Ah! O interior! O que há lá dentro? Queremos saber! Ver! E conhecer, e sentir e tocar! Mais uma vez. E mais uma vez. E mais uma vez! E sempre mais. O Fim? Parece não ter. Mas tem! Tem! Mas antes, mais uma vez!

Impossível dormir! Pensava na manhã de problemáticos dias úteis que me aguardava. E me reservava a realidade do mar de automóveis, pessoas, suores, mal-entendidos, entendidas e surpreendidas notícias do mundo. Doenças. Sujeira. Jardins. Flores. Água. Comidas. Cheiro e suor. Sempre. E a hora do adormecer novamente.

Ligo pra ela. Pro meu sono devolver. Ela não quer. Nem com rosas vermelhas à moda antiga! Ela quer ler. Não a mim. Livros vagos. Palavras de sedução não a convencem. Ação ela não permite mais. Ela não quer! E minha insônia continua. Penso em rosas de sangue. Nos espinhos que arranham e rasgam a pele. Penso em nós, banhados em sangue.

Sem perceber, adormeço. Sonho com amor. Amor. Sempre o amor. Amor é para os fortes. Que aguentam seu peso e seu tranco. Tranco, sim! Ele te derruba pelo sangue. Pelas rosas de sangue tatuadas na pele. Que arranharam meu corpo. Meu sexo. Minha mente. Insônia! Que arranham meu sono! Sono entrecortado. Sono sem descanso. Sono que joga o corpo no chão. E pisa.

Adormeço docemente pela manhã. O dia não é útil! Minha mente descansa e o corpo esquece da luta, dos arranhões. Livra-se do sangue. Suturados estão os rasgos da pele. Cicatrização. Benção da água morna. Sonhei que dormi. Sonhei que sonhei. Sonhei com rosas. Com espinhos inócuos. O sono veio. Devagar. E divagava o poeta. Sobre rosas.

10/05/09

01 maio 2009

Do Fundo do Baú

O texto abaixo, escrevi em 1990. Encontrei-o remexendo nos velhos "baús" que sempre mantemos por algum motivo, sejam eles matéria ou idéia.

O texto é bruto, não tem lapidação alguma, considero esses textos antigos como experimentos iniciais com a escrita...deste, gosto, porque algumas partes me vieram em sonho...e sempre gostei de idéias "meio" que oniricamente autopsicografadas...


Brincadeira ao Longe


Todos os dias olho a vida pela janela da sala. Vejo todo o verde que me cerca. Conheço cada milímetro da sua cor. Todas as tardes o mesmo vento varre a poeira árida dos meus olhos...então eu enxergo. Enxergo tudo o quanto existe aqui. Gosto da música natural que existe aqui, embora muitas vezes eu tenha querido ouvir uma artificial.
Gosto da arte. Gosto de toda a grande arte que me cerca, embora muitas vezes sinta que a arte está muito longe de mim. Gosto da primordialidade reinante aqui, sinto que a arte primordial é que é a arte real, pois é a sua base e o seu início.
Mas eu sinto que está errado, que há uma errância, um anacronismo nos momentos de minha vida. Desde que aqui vim morar, o tédio me sufoca, quebro-o observando a primordialidade que sempre amei, mas a sinto ditante de mim, as árvores são mais altas do que eu, o pasto é mais extenso que minha breve extensão, os animais são mais comunicativos entre eles do que comigo. Há uma inalcançabilidade na nossa fazenda, mas somente eu a percebo.
Olho meu filho brincando ao longe, tão distante da matéria primordial alcançada, mas ao mesmo tempo tão próximo dela bruta. Brinca com ela como se fosse um brinquedo qualquer. A simplicidade com que ele a toca é tão terrível que dói.
A grande pena é que não sou simples. Muitas noites eu durmo, muitas noites eu não durmo por causa daquilo a que eu chamo amor. Nem o que eu sinto é meu, o ser que se deita ao meu lado, que possui uma voz que sempre me embala, não é meu.
Sempre vejo meu filho brincando ao longe. O que me arde os olhos é que a beleza que procuro está na distância. A distância é tão bela como é belo tudo o que está perto. Sentindo isso, sinto que sou tão pobre como uma caixa de lápis de cor vazia.
Os meus lábios são salgados, mas quando ele me beija não os sente assim, pois engulo o sal antes de cada beijo. E o meu filho que sempre brinca ao longe nunca traz o seu brinquedo para perto de mim. Talvez pense que eu vá tomá-lo, por isso brinca sempre ao longe.
Quando me deito, imagino as estrelas, tendo a certeza que estão me olhando, apesar do telhado. E então sinto uma mão que passa pelo meu rosto. É meu marido, que sempre fala comigo numa linguagem que não entendo e que não sei se amo, pois não possuo linguagem alguma, possuo somente olhos, e uma enorme visão que talvez provenha deles.
Mas o céu que todas as tardes vejo pela janela da sala sempre existirá, e o meu filho sempre brincará ao longe, e eu o observarei da janela que é minha.


27.02.1990

06 abril 2009

Quarta Galáxia Poética

Hard Love Poem n. 2


Aos teus pés novamente,
desejando, me encontro

Tuas mãos novamente,
das minhas, se esquivam

Promessas, uma vez mais
insinuam-se, sitiam-me
e se escondem.

Em baixo de pedras.
de flores
de dores e
de novos amores

Tuas flores
Minhas dores
Teus amores

Ciranda de tempo
que o vento não faz.
Não desfaz, e para longe se vai.
Sem jamais, novamente...
Tuas mãos nas minhas,
uma vez mais.



21.05.08

23 março 2009

Texto Tosco ?

Tosco, tosco, tosco. Muito tosco. É esse meu escrito aí embaixo?!
Nem sei o que este meu filho é. Acho que uma crônica-conto ou vice-versa.

Só sei que eu o pari assim, de repente, prematuramente, toscamente.
O repentino parto assustou-me e fez-me pensar que algo que nasce tão rápido só pode ser tosco.

Será?

Usando e abusando da metalinguagem, digo:
Estes filhos, diferente dos filhos orgânicos, nascem porque querem.
Muitos nascem crescidos, "pulando" da mente da mãe ou do pai.


É? Pois é!


Após ler um outdoor no qual estava escrito (sobre celulares) "Além da Tecnologia", pensei, o que é isso? O que existe além da tecnologia? Para mim, só pode ser algo orgânico. Além da tecnologia seria a superação da mesma, ou seja, chegaremos na vida, ou além dela.

Além da tecnologia existe o orgânico. Nada de pânico. Eles nascem, crescem e morrem.
Da matéria à anti-matéria.

Além da tecnologia existe a anti-tecnologia, a não-tecnologia, a sua superação que é o imaterial, que é o além do orgânico. Ok?!

Mãe ingrata que sou. Filho tosco. Parido toscamente. Mas prole é. Ok?!

"Bendita é a Concepção das Proles!" (Pya Pêra, Pya Lima)

Frase mais verdadeira que esta, não há!

21 fevereiro 2009

Muito Além da Tecnologia

Charley era como os amigos o chamavam, mas seu nome era Charles.
Eu era um dos que o chamavam pelo apelido fresco. Mas ele não era fresco, só o seu apelido o era. Ele era jovem, lá pelos trinta e poucos anos. Bonitão, corpão, namorava um gata de vinte e poucos.

Saíamos sempre juntos, eu, Charley, Marcos, Pedro e o Marcelinho, o caçula da turma. Dos cinco, só Marcelinho ainda estudava. Fazia o último ano de Administração. Os outros quatro, nós, já éramos formados há pelo menos uns oito ou dez anos. Macacos velhos, ou velhas raposas, estávamos sempre passando nossas experiências ao Marcelinho, que adorava ser visto conosco – os experientes!

Dos quatro de nós já formados, e trabalhando há anos em nossas respectivas profissões, o que estava em situação boa, bem boa mesmo, era o Charley.

Formado em Propaganda e Marketing, trabalhava para uma grande agência de publicidade e já tinha feito alguns comerciais de sucesso na televisão, tendo até recebido um prêmio importante nessa área, com um comercial de uma marca de ração para cães que possuía um abordagem diferente na apresentação da importância dos nossos amiguinhos comedores de ração e, consequentemente, da importância da sua nutrição: mostrava vovozinhos e vovozinhas em diversos locais se divertindo com seus cãezinhos e alimentado-os com a tal ração. Nada de criancinhas e parquinhos com balanço.

Charley, e nós também, ficamos todos orgulhosos do sucesso que ele estava fazendo em sua profissão, no entanto, muito mais orgulhoso ficou ele do que nós, os outros quatro.
Não tínhamos certeza, mas desconfiávamos que a fama tinha-lhe subido à cabeça. Nunca conversamos sobre isso, pois éramos de certa forma toscos em análises de relações – fossem amorosas ou de amizade, mas nossas trocas de olhares diziam um ao outro que todos estávamos pensando a mesma coisa.

Acho que nós, os quatro, fizemos um acordo tácito sobre não discutirmos a situação de nosso amigo. O que foi um grande erro.

Charley de certa forma, apesar de continuar saindo conosco, estava cada vez mais distante de nós, estava totalmente bitolado em seu trabalho. Suas campanhas publicitárias eram seu único assunto, o que fez com que perdesse a gata linda que namorava há um ano. Um desperdício!

Uma noite Charley não apareceu no bar. Nem no bate-bola na quadra no sábado a tarde. Ficamos sabendo que estava trancafiado em seu escritório bolando uma campanha para uma marca de celular. Ele estava completamente neurótico, pois estava competindo acirradamente com um publicitário novo que acabara de entrar na agência, e que tinha recebido vários prêmios. Justo agora que ele era o “queridinho” da empresa.

Pois bem, a campanha do outro cara foi a escolhida pelo diretor da agência. Fez muito sucesso porque mostrou que é possível enxergarmos os benefícios intangíveis da tecnologia – existindo a possibilidade de vivermos “além da tecnologia”, observando as coisas belas e simples que estão ao nosso redor, sendo a tecnologia, apenas um acessório facilitador – pelo que entendi.

Charley não aguentou o tranco! Não entendi muito bem porque ele ficou tão sensível e mal devido ao sucesso da campanha do colega, mas, sua irmã que era psicóloga, nos explicou que a intangibilidade dos materiais de consumo já havia sido mostrada por Charley na propaganda de rações e ninguém havia notado isso. Nem ele mesmo! Por isso ele não se conformou com a própria falta de sensibilidade para ter percebido esse filão e ter aplicado o conceito na campanha dos celulares.

Isso foi o fim para nosso amigo. Até hoje não consigo entender a dimensão da gravidade disso tudo para Charley! Só sei que, no bilhete que escreveu antes de se atirar do vigésimo terceiro andar do prédio da agência, as duas horas da madrugada de uma segunda-feira, ele dizia que havia compreendido o que era “viver além da tecnologia”, e era isso que ele iria fazer.

21.02.2009

01 outubro 2008

Alguém conhece a Marisinha?

Marisinha, ex-cantora do teatro de revista nos anos 20 (do séc. XX), tornou-se mecenas de artistas e artesãos no interior paulista, após casar-se com um médico–cirurgião e rico fazendeiro de Ribeirão Preto.


Não se sabe como se conheceram, só é sabido que o médico, por volta de seus cinquenta anos, casara-se com a cantora Marisinha, quando esta encontrava-se no início do seu breve apogeu como artista.
Elegante mulata, de cujo nascimento, também pouco se sabe, aos 22 anos começou a ficar famosa no Rio de Janeiro devido à sua bela e sensual performance como cantora e atriz.

Com o casamento, largou a carreira artística e instalou-se numa ampla e confortável casa na cidade de Ribeirão Preto, interior de São Paulo; ainda nos anos 20, com o marido.
Lá, passou a incomodar a sociedade tradicional local, pois muitos se escandalizaram com tal união – jovem artista e mulata, casando-se com o cobiçado médico e fazendeiro (apesar de já cinquentão, havia permanecido solteiro até então), de tradicional família do interior cafeeiro.

Os saraus realizados na casa do casal tornaram-se conhecidos em todo o Estado. Sob o manto da pura boêmia, Marisinha era na verdade, uma inusitada patrona tropical das artes, adorada por uns, e odiada por outros.
Dela, diz-se, vários nomes da música popular brasileira de diferentes vertentes receberam o primeiro apoio e incentivo, bem como artistas plásticos com renomadas carreiras no Brasil e no exterior. Sem contar os inúmeros artesãos da região, que, com o seu mecenato, organizaram diversas feiras de artesanato itinerantes por todo o país.

Muitos a descrevem como puramente bondosa e caridosa, amante incondicional das artes, e desprovida de segundas intenções; outros, como uma grande boêmia viciada em ópio e colecionadora de amantes-artistas, os quais patrocinava com a fortuna do marido e nas barbas deste.

O que se pode afirmar com certeza, é que Marisinha tornou-se uma lenda e, como tal, possui diferentes versões.

Há os que afirmam que na realidade, ela viveu no início dos anos 70, sendo uma referência no incentivo à contracultura; abrigando em sua fazenda, hippies e artistas visionários da era de aquário, do Brasil e do exterior.

Marisinha foi tão marcante na cidade que há quem diga que, ainda hoje, no caminho da sua casa, no centro da cidade, até a fazenda, nas efervescentes noites do verão ribeirão-pretano, todas às primeiras quintas-feiras de cada mês, por volta das 20 horas, é possível ouvir a vibrante folia do “corso” que antecedia os seus famosos saraus, quando estes eram realizados na fazenda (os da cidade não possuíam datas definidas).



Apreciados leitores, depois de ler esta história, que até mim veio por meio de um sonho - a qual adornada foi, obviamente, com pitadas de imaginação; digam-me, por favor, alguém conhece a Marisinha?



set./2008

22 julho 2008

Sem Rótulos

Em alguns momentos, adormecer é como entrar numa espiral de palavras, num redemoinho de idéias, aonde muitas vozes falam ao mesmo tempo, ditando o que escrever.
Será isso a autopsicografia?




Jun/2008

20 julho 2008

A Grande Ternura

Ele lia.
E ela dormia.
Bela e diáfana,
sua amada se encontrava.
E ele então pensava,
no amor que os unia,
e acreditava que ele nunca terminaria...

Seu corpo, uma ternura invadiu,
Seus olhos, lentamente se abriram,
E de um sonho, ele todo emergiu.

Seu amor, em seus sonhos,
adormecida permanecia.
E ele, com a ternura a invadir-lhe o peito,
e as lágrimas a lhe encherem os olhos,
adormeceu...
E, mais uma vez, sonhou...

De sonho em sonho,
Pé ante pé,
De livro em livro,
E de vez em quando,
Ele espiava, discretamente,
Seu amor, ali, adormecida...
Talvez entorpecida,
avizinhada e avisada,
da sua imensa ternura.
Ternura que em seus sonhos
a colocava,
Que de seus sonhos,
a retirava.

Ternura que lhe percorria o corpo,
desejando que o amor não acabasse,
que o amor começasse,
que o amor re-começasse.

Mas ali, adormecida,
lentamente esmaecida,
seu amor se mostrava,
e se prostrava...
a despeito de toda a sua ternura.
A despeito de todo seu desejo,
e de todo o seu grande amor...

De pé em pé,
Sono ante sono,
Quase até o sonho,
À cama, ele chegou, de pijama,
Com um livro na mão...

E a ternura, agora adormecida em seu peito,
Acalmava-lhe a dor...
De olhar para o lado, enquanto lia,
E ver que ali, nem acordada,
Nem adormecida,
Sua amada permanecia...


05.05.2007

05 julho 2008

Metavida

Vá meu amor,
Vá viver nesta vida.
Eu aqui continuarei...
Nesta construção descabida
Neste sonho de sonhos
Nesta casinha escondida
Onde nascemos, e eu viverei

Escolha, meu amor
Caminhos estreitos,
E em cada um, plante uma flor
Guarde as sementes dentro do peito
E plante novamente, quando chegar o momento

Vá meu amor,
E não olhe pra trás...
Mesmo sob dor,
Deite fora a nostalgia,
Mas mantenha na mente, a poesia
E no coração, a paz

Deixe-me a cá, meu amor
Colhendo dados e idéias
Mesmo nas noites, de estrelas, vazias
E nos dias também, de intensa ventania

Deixe-me a cá, meu amor
Formulando teorias, desconstruindo padrões,
alimentando ilusões, sonhando e experimentando,
Esta metavida, esta ida,
Sem volta talvez...

Mas, meu amor,
Não se preocupe, não se culpe
e nem se desculpe...
Apenas se cumprem, nossos desejos...
Apenas estamos, vivendo...


22.12.2007

27 junho 2008

Caliandra


Vem Caliandra,
Vem encontrar-me pela manhã,
Vem dar-me bom dia!
Vem oferecer-me tua mão,
Para que eu possa segurá-la,
e tua face, para que eu possa
Beijá-la.

Vem Caliandra
Vem comigo repartir
Tuas alegrias,
Vem a mim contar
Teus dissabores e
Mal-humores.

Bela Caliandra,
Vem florir minha sina,
Que minha vida
Já se esvazia...
Vem rápido, vem ligeira,
Que minha vida já não agüenta
Assoprar as cinzas frias da lareira.

Preciso Caliandra,
dos teus encantos,
E que em todo canto,
Deixes teu beijo doce e aveludado
Teu carinho e teu retrato
Enfeitando a lareira aquecida,
Renascida e adornada
De flores e de amores.

Vem Caliandra,
Vem sem medo, sem temor,
Vem tirar meu amargor
Vem em mim deixar a tua cor

Vem Caliandra,
Vem beijar-me com ardor
Vem sem máscaras e sem pudor,
Vem anoitecer no meu amor...

Ressonar no meu peito,
Abandonar-se em mim,
e eu em ti.
Misturando-nos ambas,
Em meio às flores do jardim...


Maio/jun.2007

“CORAÇÃO-NAVIO” *

De além-mar, sob o vôo das gaivotas, vêm o meu amor...
Na linha do horizonte, bem ao longe, avisto seu navio,
cujas brancas velas contrastam com o azul do céu...
Vem chegando lentamente, tal qual o hesitante, de descerrar um véu.


De além-mar, trazido pelos bons ventos, vêm o meu amor..
Traz nas mãos, a força da luta, e no corpo, cicatrizes de dor
Na mente, a decisão do seu destino,
e no coração... quem saberá, o que se passa em seu coração?


Sei apenas e tão somente, o que se passa aqui,
no meu peito ardente, que transborda de amor,
ao avistar, na tênue linha entre céu e mar,
a chegada do meu porto navegante...
em seu magistral “coração-navio”, célere e ofegante!


De além-mar, sob os auspícios benevolentes de Netuno, vêm o meu amor...
Além do mar, vêm aquele que tanto esperei, que em sonhos busquei
Muito além da lei do mar, em metapoético navio, vêm o meu amor,
aportando nestas terras prolíficas, abundantes de história e poesia...


Na torre de vigia, sua chegada já se anuncia,
entre trombetas e discursos, o seu nome me guia
Seus passos, de proa à popa, observo; seu olhar, tento decifrar.
Pela prancha adornada, descerá ele do seu “coração”...
ou terei eu, que escalar suas ameias?




* expressão usada por Nicolas Guto no poema “Ulisses”


Dez/2007-Jan/2008

31 maio 2008

O perfume no elevador

Entrei sozinho no elevador. A porta se fechou e imediatamente senti aquele perfume. Um delicioso e adocicado perfume. Tinha um final levemente cítrico, mas era indiscutivelmente doce. Adocicado sem exagero, na medida exata da doçura. Da doçura de uma mulher. Era um perfume feminino.

Lamentei chegar tão rápido ao meu andar. Queria mais tempo junto ao perfume.
Apesar de detestar elevadores – esses quartinhos fechados e claustrofóbicos que nos carregam pelas entranhas dos edifícios...mas que, em contrapartida, podem nos embriagar docemente com perfumes femininos – concentrando-os em seu espaço exíguo – eu queria permanecer dentro dele.
Dentro desses espaços que abrigam temporária, mas marcantes presenças de fêmeas, que nos atiram da realidade para um cálido e suave mundo de sonhos...

Lamentei terrivelmente não habitar o vigésimo sexto andar, e chegar tão rápido como cheguei, ao décimo terceiro. Meu andar. Décimo terceiro, número treze. Meu número da sorte.
Decidi ao dez anos de idade que este seria meu número da sorte. Somente mais tarde fui descobrir que ele era considerado um número de azar. Não me abalei. O número treze era o meu número da sorte. E ponto final.

No dia seguinte, o perfume no elevador lá se fazia sentir outra vez. No mesmo horário do dia anterior. Exatamente quando voltei do trabalho, direto para o décimo terceiro.

No primeiro dia do perfume, eu faltara na academia porque havia esquecido o par de tênis no apartamento. No segundo dia, faltei novamente porque esqueci não somente os tênis, mas a mochila toda!

Durante toda a semana, deparei-me, senti e aspirei o perfume no elevador. Deixei que ele me envolvesse, e passei a adormecer pensando na mulher que o exalava.
Faltei a semana toda na academia. Faltei também no curso de alemão e no bar com os caras do trabalho.

Na terceira semana, sentindo-o no elevador todos os dias ao voltar do trabalho, me dei conta da insanidade em que eu havia me colocado. Nem ao menos tentei descobrir a qual mulher aquele perfume pertencia!
Senti-me um tolo sem precedentes. Mas como libertar-me? Daquele perfume embriagante, que envolvia minha vida e a transportava para os braços de um amor grandioso?

Loucura! O que deveria eu fazer? Relacionar-me apaixonadamente com uma mulher e pedir-lhe que usasse o perfume? Se ela negasse, deveria eu implorar-lhe, ou, numa hipótese mais extrema, exigir-lhe o uso do perfume? E se ela o negasse veementemente?

Deveria então, eu mesmo usá-lo? E dormir envolto a ele; que assim, seria, meu perfume?




Maio/2008

14 abril 2008

Poema inspirado por...(alguém de olhos verdes?)

O verde nos teus olhos



O verde das matas nos teus olhos
É como o vento que faz curvar as árvores,
e que semeia as flores nos campos.
Cor das águas profundas,
que espelham a lua
nas noites serenas de amor


Cítrico olhar, que lentamente se adocica
Na agridoce e suave fragrância,
da lima e da rosa pimenta


O verde aquamarine dos teus olhos
esculpe na tua face, a beleza...
Por vezes, de singela pedra de jade,
por outras, de imperiosa tigresa...



09.04.2008

18 março 2008

Filme e Livro

Billy Pilgrim me lembrou Macabéa e vice-versa....





Neste fim de semana assisti A Hora da Estrela, filme de Suzana Amaral sobre o livro da Clarice Lispector. Eu já havia lido o mesmo há muito tempo, mas o filme, vi pela primeira vez.
É impressionante e desconfortável a incômoda e despropositada vida de Macabéa, sem lugar neste mundo. Sua simplicidade extremada e seus questionamentos infantis e ao mesmo tempo, quase filosóficos, são estarrecedoramente apaixonantes e apavorantes. (“ Você é feliz?” pergunta sua colega de trabalho; ela responde: “Feliz serve pra que?”)
Um desconforto só!
No dia seguinte, continuei minha leitura de Matadouro 5, de Kurt Vonnegut. Uma incrível, satírica e sã loucura.
Resultado: adormeci pensando que Billy Pilgrim e Macabéa eram muito parecidos (não sei se minha embriaguez onírica contribuiu para isso, sendo esta idéia um delírio, ou se realmente eles têm alguma coisa em comum...); assim, os dois atormentaram meu sono e meus sonhos. Senti que precisava escrever sobre isso, senão, eles me atormentariam por mais tempo!


Talvez o que enxerguei em comum nos dois tenha sido o seu deslocamento em relação a um lugar na vida - ambos, cada um ao seu modo, são deslocados no mundo...e tem uma ingenuidade infantil - Mas isso ocorre de modos diferentes para os dois:

Macabéa vive a vida inconscientemente, quase como um animal irracional – ela é um ninguém que nem sabe que é um ninguém...
Sua existência, quase metafísica, se concretiza na sua morte prematura.

A vida de Billy Pilgrim também não o deixa confortável, e, de certa forma, ele sabe disso, pois passa a odiar a vida (mas infantilmente); principalmente após sua experiência na segunda guerra (é internado num hospital de veteranos com colapso nervoso, e cobre a cabeça nas visitas da mãe, pois tem vergonha de odiar a vida, uma vez que sua mãe a deu a ele...).
Antes da guerra, sua vida já não tinha muito sentido, depois, parece que o sentido vêm sem querer, com seu casamento com a moça rica, filha do proprietário da escola de Optometria aonde ele estudava antes da guerra. Casamento esse, decidido num momento de delírio do personagem, que nem sabia ao certo o que estava fazendo...(a moça era muito feia...e ninguém a queria).
Durante a guerra, sua apatia perante tudo - praticamente empurrando-o para a morte, só é barrada pelos colegas soldados, que o vão levando pra cá e pra lá guerra afora, salvando-o da morte.
Ainda não acabei de ler Matadouro 5, mas parece que a salvação principal de Billy (em relação a sua vida ter um sentido) vêm de sua relação com o planeta Tralfamador, cujos alienígenas o abduzem...(não se assustem....o livro é uma mistura de drama satírico sobre a segunda guerra – com ênfase ao massacre de Dresden, na Alemanha, e ficção científica...).

Bom, é isso, embora as duas histórias sejam loucamente diferentes e achar um ponto em comum entre seus personagens pareça um desvario sem precedentes, foi isso mesmo que enxerguei, Billy Pilgrim me lembrou Macabéa e vice-versa....

03 março 2008

Trilogia

TRILOGIA



Sol morno, brisa fresca, lembranças e caminhos
Ruas largas, sensações de outros tempos
Avenidas que conspiram com poetas andantes...
INSPIRAÇÃO



Papéis espalhados, computador ligado, programas abertos
Caneta a postos, sinalizando planilhas, dançando nos dedos
Uma pausa, um pensamento, um olhar, uma idéia...
CRIAÇÃO



Em meio às flores perfumadas, coloridos insetos passeiam
Poemas brotam, que surpresa, nos jardins da cidade
E os poetas acompanham, curiosos, o andar das joaninhas...
POETIZAÇÃO



27 e 28/02/2008

14 janeiro 2008

Livros Viajantes

O Fim da Infãncia, de Arthur Clarke


Descobri a existência do livro O Fim da Infância de Arthur Clarke numa lista de discussão de Gestão do Conhecimento, e minha curiosidade foi aguçada na hora!
Li e não me arrependi! É fantástico!
Nunca tinha ouvido falar no autor, mas descobri que ele é um autor de ficção científica famoso, tendo escrito 2001: Uma Odisséia no Espaço.
Bom, por ai podemos ver que ele é da leva da boa Sci-Fi (não que eu entenda disso, mas pelo pouco que li sobre, fica-se sabendo...)
Bem, mas vamos lá. Não quero estragar a surpresa de ninguém, mas....rs.....lá vai a história:
O livro foi escrito em 1953 e a história inicialmente se passa nessa época também.
Nos anos 50 os Ets finalmente invadem a Terra e domesticam a humanidade!
É maravilhoso ler tudo de bom que eles aprontam por aqui. E tudo pacificamente, sem guerras! Um exemplo do que acontece é durante as touradas na Espanha. Todos que assistem ao touro ser martirizado também sentem a dor que o animal está sentindo!
É de arrepiar! Resultado: acabam-se as touradas!
O mundo todo se transforma numa grande e única nação. O preconceito racial e religioso é extinto; porém, sobre o sexual nada se diz...mas, vale lembrar no entanto, que o livro foi escrito em 1953!
O planeta então, vai caminhando prosperamente, sem fome, sem miséria, sem criminalidade, sem doenças, tecnologia de ponta a serviço de todos – o verdadeiro paraíso na Terra.
Porém, após 100 anos de boa dominação, descobre-se o verdadeiro propósito dos Ets, chamados de Senhores Supremos – levar embora do planeta todas as crianças.
No entanto, os próprios Ets cumprem ordens para a Mente Suprema (seria Deus?), desconhecendo os propósitos deste último.
Assim, com o fim da infância, têm-se simplesmente, o fim da humanidade e o fim do planeta!
Todas as crianças com idade abaixo de 10 anos começam a desenvolver estranhos poderes e aos poucos vão perdendo suas personalidades e vão se fundindo todas numa única mente que vai sendo alimentada com conhecimentos pela mente suprema (terá sido por isso a menção ao mesmo numa lista de GC?), e vão sendo levadas pelos senhores supremos para a tal mente suprema.
A todas que vão nascendo, acontece a mesma coisa, então, todos param de ter filhos e assim se acaba a humanidade!
Aterrador, fantástico e viajante!